A EFPIA publicou esta semana um estudo sobre o valor social e económico da inovação farmacêutica na Europa, que reforça o argumento de que o subinvestimento na saúde constitui uma falsa economia, que custa mais do que poupa. Os dados revelam que, entre 2014 e 2024, o investimento europeu de 11,67 mil milhões de euros em novos medicamentos gerou um retorno superior a cinco vezes esse montante em poupanças sociais, económicas e hospitalares – o que equivale a um total de 66 mil milhões de euros, incluindo mais de 9 mil milhões de euros em poupanças hospitalares directas.
O estudo analisa o impacto na mortalidade e na utilização dos serviços hospitalares e quantifica os retornos económicos com base em três grandes áreas de doença em 29 países europeus, entre 2014 e 2022. Realizado pelo Instituto WifOR e elaborado em colaboração com o economista da Universidade de Columbia, o professor Frank R. Lichtenberg, o estudo desafia a percepção dos cuidados de saúde como um mero custo a conter e defende, em vez disso, que as políticas devem reflectir o valor que a inovação traz aos sistemas de saúde e à sociedade.
As principais conclusões:
- Utilização de medicamentos recentemente aprovados: Entre 2014 e 2022, a utilização de novos medicamentos está associada a uma redução de 1,83 milhões de anos de vida perdidos antes dos 85 anos e a uma redução de 20,9 milhões de dias de internamento em 29 países europeus, o que equivale a libertar mais de 57.000 camas hospitalares durante um ano inteiro
- Retorno do investimento: a utilização de medicamentos inovadores gerou um retorno até 6 vezes superior ao custo, com um impacto total de mais de 66 mil milhões de euros em toda a Europa
- Os medicamentos inovadores geraram 38 mil milhões de euros em produtividade da força de trabalho; 19 mil milhões de euros em contribuições não pagas e; 9 mil milhões de euros em poupanças nos custos hospitalares
- As Poupanças hospitalares geraram 78 cêntimos por cada 1 euro investido, sem contar com os ganhos de produtividade
- Áreas terapêuticas: Cada 1 € investido em medicamentos para o cancro gerou um retorno de 6,80 €; os medicamentos para a diabetes e o metabolismo geraram um retorno de 4,70 € e os medicamentos respiratórios geraram um retorno de 3,80 €.
O relatório também detalha o retorno do investimento a nível nacional, apresentando o impacto social total, o aumento da despesa farmacêutica, a poupança em hospitalizações e o ROI implícito para todos os 29 países.
O estudo demonstra que o investimento na inovação farmacêutica e a disponibilidade atempada de medicamentos inovadores geram benefícios económicos e sociais substanciais, além de atenuarem as limitações de capacidade da força de trabalho nos sistemas de saúde. Estes benefícios são, no entanto, frequentemente observados a longo prazo ou manifestam-se fora dos orçamentos da saúde, sob a forma de redução dos custos com a assistência social, aumento das receitas fiscais e redução dos subsídios por doença.
Consequentemente, a Europa continua a adoptar estratégias de contenção de custos a curto prazo, destinadas a reduzir as despesas com medicamentos nos Estados-Membros, em vez de uma estratégia de investimento que beneficie os doentes, os sistemas de saúde e a economia europeia. A título de exemplo, a Europa gasta cerca de 1 % do PIB em produtos farmacêuticos, em comparação com 2 % nos EUA e 1,8 % na China.
Sem um compromisso com o aumento da despesa em medicamentos inovadores, os doentes e os sistemas de saúde europeus enfrentarão atrasos crescentes no acesso aos mais recentes avanços científicos, e o ecossistema de inovação continuará a deteriorar-se em comparação com a Ásia e os EUA.
A Europa continua a enfrentar dificuldades para competir pela captação de investimento em comparação com os seus pares a nível mundial: perdeu quase um quarto da sua quota global de investimento em I&D farmacêutica ao longo de duas décadas, e a sua quota de ensaios clínicos patrocinados pela indústria reduziu-se quase para metade desde 2013. É provável que as incertezas criadas pelas políticas globais de comércio e de fixação de preços agravem estas tendências.
Recomendações políticas:
- Reconhecer a inovação farmacêutica como um investimento económico e não como um custo: o retorno dos medicamentos é elevado e provavelmente subestimado. Os quadros políticos devem reflectir o valor económico total da inovação, incluindo os ganhos de produtividade e a redução dos encargos com os cuidados de saúde.
- Garantir o acesso atempado e equitativo dos doentes a medicamentos inovadores em toda a Europa: os atrasos no acesso traduzem-se directamente em perdas evitáveis para a saúde e em retornos económicos perdidos. A simplificação dos processos de aprovação, reembolso e adopção deve ser uma prioridade comum a todos os Estados-Membros.
- Reforçar o ecossistema europeu das ciências da vida através de uma acção política coordenada: o contexto geopolítico e regulamentar corre o risco de tornar a Europa menos competitiva como destino para o investimento farmacêutico. Os Estados-Membros e as instituições da UE devem tratar a inovação, o acesso e a competitividade como agendas políticas interligadas, e não isoladas.
“Se a Europa quiser continuar a ser líder mundial nas ciências da vida tem de criar um ambiente onde a inovação possa prosperar e onde os doentes possam beneficiar dos avanços científicos sem atrasos desnecessários. As escolhas feitas hoje irão determinar se a Europa continuará a liderar a inovação médica ou se ficará ainda mais para trás num dos setores de maior importância estratégica a nível mundial”, afirmou, em comunicado, Stefan Oelrich, presidente da EFPIA.
No mesmo comunicado, Nathalie Moll, diretora-geral da EFPIA, referiu que “estes dados vêm reforçar a base de evidências crescente de que o investimento na saúde gera significativamente mais valor do que custa à sociedade. Retirar a prioridade aos orçamentos da saúde e dos medicamentos é uma escolha política que não só constitui um erro estratégico, como também uma decisão economicamente contraproducente, que sacrifica a prosperidade a longo prazo em prol de ganhos a curto prazo. Muitos países reconhecem agora a importância de uma sociedade saudável como elemento-chave para uma economia de alto desempenho; a Europa deve seguir o exemplo.”
Consulte aqui o press release da EFPIA, aqui o estudo WifOR e aqui a infografia.